24/12/2013

Milagre de Natal

Eles amavam-se, porém, o destino separara-os cruelmente. Não por amor proibido, nem por distância, ou por terceiras pessoas... Separara-os pelo pior, o temido fim.
A linha do tempo de Ryan parou no momento em que Maísa suspirou pela ultima vez. Esse fora o seu ultimo segundo de paz...
Eram felizes. Tinham uma relação amorosa muito forte, com algumas discussões óbvias de casais, mas nunca passavam mais de vinte e quatro horas em clima de zanga.

Ryan caminhava sobre a neve fria das ruas de Nova York com um casaco a mais na mão e uma mala debaixo do braço. O seu nariz pingava e os seus dedos estavam de tal modo vermelhos que dava a entender que ele nem os sentia.
Após cinco passos lentos e curtos, fez a curva da rua seguinte e entrou num café acolhedor. Sentou-se numa mesa encostada à janela com um aquecedor atrás da cadeira.
Não se sentia com disposição para nada. Não tinha lado nenhum para onde ir, não queria passar a véspera de natal com a família e por causa das festividades nem tinha trabalho, ou seja: era o seu dia de folga mais infeliz de sempre.

A atendedora do café veio em seu encontro para atender ao seu pedido:
-O que deseja?
-O que desejo não posso ter... -Disse Ryan ainda fixando a janela sem nem olhar para a empregada.
Com muita paciência, a rapariga aproxima-se um pouco mais dele, e pegando no seu bloquinho de notas e caneta insiste:
-O senhor desculpe a minha gramática mal usada. Pretende tomar algo? Um chocolate quente talvez?
-Traga-me um whisky com gelo, por favor...
A rapariga mantém-se com um olhar de espanto ainda ao seu lado. Mas já que o cliente tem sempre razão, virou costas e pouco depois voltou com o pedido do homem.
-Aqui está, tem gelo suficiente, senhor?
-A sua ironia não me afeta...
-Ironia?! M-Mas... Desculpe...
Dando-lhe as costas, a empregada vai na direção de outro cliente. Ryan finalmente olha para a empregada e fazendo sinal chama-a. A pobre coitada, já esperando o pior, suspirou e foi ao seu encontro.
-O que deseja? Isto é... o que pretende pedir?
-Sente-se aí. -Diz Ryan enquanto puxa na sua mala da mesa e a coloca no chão. Olhando para a empregada e vendo-a ainda imóvel á sua frente, insiste. -Estou a falar a sério... Se não se importa de me fazer este favor...

A rapariga sentou-se e com um gesto rápido ajeitou os seus cachos louros que lhe caíam sobre os ombros. Um pouco assustada com o que aconteceria depois, chegou-se para a ponta da cadeira como se estivesse pronta a fugir caso fosse necessário.
Ryan deu um gole no seu copo de whisky com gelo, e fazendo um som de irritação na garganta pousou o copo com alguma força. Isto assustou a rapariga e ela já se ia levantar quando ele lhe agarrou levemente o pulso.
-Espere... Só quero conversar um pouco...
A rapariga mantém-se na cadeira e pressente que vai ser uma longa manhã.
Ele compõe as costas na cadeira e olhando-a nos olhos começa:
-Não tem nada a ver com isto, eu sei, mas preciso de um psicólogo que não seja diplomado, que não venha dizer que tenho traumas ou doenças psicológicas. Pode ser apenas a minha ouvinte por uma hora?
Estranhando aquela intimidade toda, a rapariga aceitou.
-Mas não tenho muito tempo... -Disse ela olhando para o balcão reparando no olhar do patrão.
-Eu posso pagar-lhe as horas que ele lhe retirar do salário, dinheiro não é problema.
-Hum, entendo... Não lhe falta dinheiro, porém está infeliz na véspera de natal... -Reparando no olhar sério do homem, resolveu não terminar a frase. -Desculpe, eu realmente não tenho nada a ver com isso...
-Deixe-me contar-lhe o sucedido:

"Tudo ocorreu acertadamente há um ano atrás. Eu estava feliz, ela estava feliz... Tínhamos passado a manhã a comprar presentes para os familiares dela... Não que eu não comprasse para os meus, mas sabia como ela adorava percorrer cada centímetro das lojas à procura de uma prenda que chegasse à alma de cada pessoa. Com isto quero dizer: Eu não ia exatamente para comprar presentes, ia para ver o sorriso dela emocionada com a época festiva, ia para sentir a mão dela quente na minha enquanto caminhávamos, ia particularmente para a ajudar a carregar as compras para que nada lhe faltasse ou a magoasse..."

Ele fez uma pausa e deu um longo gole no whisky com gelo.
-Então está de mau humor porque a dama o deixou? -Quis arriscar a rapariga, mas logo se arrependeu, os olhos do homem fulminavam de raiva.
-Claro que não! -Gritou pousando bruscamente o copo na mesa fazendo saltar um cubo de gelo para o chão. -Ela nunca me deixaria! Ela amava-me e ainda ama!
A rapariga levantou-se para apanhar o cubo de gelo do chão, não fosse alguém cair e magoar-se. Pediu desculpa e voltou a sentar-se frente a frente daquele homem tão temperamental.
-Bem... De facto, ela deixou-me sim... Deixe-me continuar:

"Nessa noite íamos jantar com a família dela. Eles já me conheciam à muito tempo, então convidaram-me para comemorar aquela noite festiva com eles. O meu plano era pedi-la em noivado nessa noite, precisamente à meia noite em ponto, enquanto os priminhos dela abriam os presentes... Primos... Há um que eu sempre detestei... Nunca gostei daquele paspalho..."

A raiva consumia-o. Parecia que aquele ódio tão profundo lhe comia a alma.
-Então mas o que aconteceu? Se vocês se amavam tanto... Nada de mal poderia ocorrer, certo? -Perguntou a rapariguinha, afastando o copo das proximidades das mãos dele.
-Se não fosse por causa daquele imbecil, nada teria acontecido e estaríamos aqui os dois felizes e juntos hoje! Quem sabe, casados ou para casar...
-Mas então a culpa foi do primo? Não me diga que... eles gostam um do outro?! Meu Deus!
-Não! Ora, que estupidez! Já lhe disse que ela me amava verdadeiramente!
-Mas...
-A curiosidade cresceu não é? Eu vou contar:

"O primo mais velho dela, estudava na universidade na altura... Aquele idiota deixa sempre as coisas para a ultima da hora, e em vez de vir para cá logo que as férias começaram, resolveu vir ter com a família só mesmo na véspera de natal, à noite! A Maísa adorava-o... Como ela era filha única e quando era pequena só tinha aquele primo, ele era como um irmão mais velho para ela. Bom, já era tarde, a avó e os pais dela estavam a tratar do jantar e a Maísa queria ir buscar o primo à estação... É mais que óbvio que não a ia deixar ir sozinha, e como eu tenho carta de condução e ela não, ofereci-me de motorista..."

-Tinha ciumes do primo dela? -Interrompeu a rapariga.
-Não sei, talvez...
As mãos dele tremiam, não de frio, pois já haviam voltado à cor natural e percebia-se que agora estavam quentes. Ele estava nervoso... Com certeza alguma memória maligna o consumia por dentro...
Continuou:

"Ela entrou no carro com o presente que tinha comprado para o primo nessa manhã no colo dela. Estava tão feliz... Ele prometera trazer-lhe um coelhinho bebé de presente. Sendo o animal preferido dela, ele demonstrou dar-lhe alguma importância, depois de anos sem lhe dirigir a palavra... Estupor!"

-Credo, que ódio! -Exclamou a empregada afastando-se um pouco dele.

"Tinha-mos acabado de encontrar aquele palhaço na estação, quando voltámos para o meu carro e ela decidiu entregar-lhe o presente dentro do carro... O que não entendo é o porquê de fazerem tanta questão que as criancinhas abram os presentes apenas à meia noite e o primo dela pôde abrir assim sem mais nem menos dentro do carro... Bom, ele abriu e viu um envelope. Abriu o envelope e lá dentro havia dois bilhetes para o concerto da banda preferida dele que no momento não lembro o nome... Ele agradeceu e ficou em silêncio... Ela estava à espera do seu presente, e ele apenas disse - "Oh fofa esqueci-me do teu presente dentro de casa! Também não faz mal, é apenas uma lembrancinha, mando por correio depois...Espero que não te importes." -A Maísa ficou com uma expressão triste no rosto, ele realmente não se tinha lembrado da promessa... Quis dar-lhe um carinho para ela entender que eu estava ali para ela... pus a mão em cima da perna dela. Ela sorriu e eu sorri de volta. O idiota teve de interromper e dizer algo como "Mas que confianças são estas? Abusar da minha prima só eu posso!" Bem... não sei se ele estava a brincar ou a falar a sério, só sei que eu fiquei fora de mim e lhe espetei um murro na cara. E como consequência um outro carro bateu no meu... a Maísa foi projetada através do vidro da frente do carro, o idiota ficou em coma por algum tempo, e eu também... Quando acordei aquele imbecil já tinha tido alta há uma semana, e o funeral da Maísa já tinha sido realizado há quase um mês..."

A empregada horrorizada com a história nem conseguia dizer nada... Apenas segurou as mãos dele para que parassem de tremer, e ouviu com atenção cada soluço dele...
-Sabe a melhor? Se não fosse ele... Tudo estaria bem... -As lágrimas escorriam-lhe pela cara.
-Não pode culpar as pessoas pela obra do destino...
-Mas a culpa também foi minha... Se não tivesse deixado os ciumes tomarem conta de mim, nada disto teria acontecido...

Depois de um copo com água e açucar e um tempo de choro naquele café, Ryan saiu de lá com o casaco a mais na mão e a mala dele debaixo do braço. Tinha um local onde ir: A estrada onde tudo se passou.
Foi a pé, nunca mais voltara a conduzir depois daquilo. O lago por baixo da estrada estava congelado, desceu até lá para enterrar o casaco e deixar umas flores naquele mesmo local, à beira do lago.
Estava tanto frio... Ele já não sentia as mãos outra vez... Acabou por adormecer ao lado do jazido que acabara de fazer.

Abriu os olhos e era de noite. Não se conseguia mover.
Pouco a pouco via uma luz chegar na sua direção. Seria o seu fim?
-Ryan... Porque fazes isto? Ryan...
Ele reconhecia esta voz... era ela, que saudades daquela voz...
-Sabes que eu sempre te amarei... Mas não quero que estragues a tua vida desta maneira... Olha para ti, na véspera de natal aqui deitado no frio e sozinho...
Ela estende as mãos e ajuda-o a levantar-se. Ele chorava de alegria, abraçou-a e suspirou.
-Ryan... a culpa não foi do meu primo... -Disse ela limpando-lhe as lágrimas. -Nem tua parvinho...
A Maísa beijou-lhe a testa e abraçou-o novamente.
-Deixaste-me... Foi horrível suportar as horas passar sem ti. Não imaginas como foi torturante acordar todos os dias e saber que nunca mais te ia poder ver... Porque me fazes sofrer deste jeito? Volta para mim... Preferes que vá eu ter contigo?
-Não sejas ignorante! Não quero que te mates, muito pelo contrário, só estou aqui para que tenhas juízo e refaças a tua vida... Quero que sejas feliz, quem sabe, com outro alguém...
-Não quero!
-Por favor? Como meu ultimo desejo...
-Isto dói tanto...
-Não te esqueceres de mim já é um grande desejo que tenho, mas quero que ames outras pessoas, quero que vivas novos sorrisos e tenhas esperança de novos sonhos... Fazes isso por mim?

Beijaram-se e quando Ryan volta a abrir os olhos estava de novo deitado naquela campa cheia de neve.
Chorou abraçado a si mesmo. O desespero foi tanto que rasgou o próprio casaco.
Ficou horas a olhar para aquele jazido. Definitivamente a vida era muito injusta... Teria de viver com aquela dor até ao fim dos seus dias...
Voltou a deitar-se sobre o jazido de neve e um pouco depois sentiu algo a mexer na sua perna esquerda: um coelho!
Media aproximadamente dezasseis centímetros e era totalmente branco como a neve. Na sua boca estava... a caixinha com o anel de noivado que ele pretendia oferecer à Maísa no natal... Quando enterrou o casaco com o embrulho no bolso, deveria ter enterrado a toca do animal, de certo que acontecera isso...

Um coelho, um anel... Realmente ele tinha tudo, menos a personagem principal daquela história...
Levantou-se cambaleando devido á quebra de tensão que estava a ter, e subiu de novo para a estrada. O bichinho seguira-o e continuava com o embrulho na boca.
Que animal interessante. Pegou nele e colocou-o no bolso do casaco. Esquecera-se que o bolso estava furado. A pobre bolinha de pêlo branca caiu do bolso e foi parar bem no meio da estrada. Carros da direita e da esquerda, o animal não tinha qualquer hipótese, mas mesmo assim saltitava na direção do seu dono escolhido.
Naquele momento, Ryan teve uma espécie de "déjà vu" do que acontecera há um ano atrás e correu para apanhar o coelho. Um carro travou a fundo e conseguiu impedir o pior. Sim, desta vez tudo foi diferente. A sua amada estava a salvo nas suas mãos...

Palavras da Autora: E pronto é só... Espero que tenham gostado desta histórinha escrita por mim. Sei que é triste mas foi feita com coração e foi para isto que a inspiração deu...
 Mesmo assim espero que gostem. Beijo :*

Feliz Natal,
Bunny Freire

8 comentários:

  1. Ola meu amor, adorei muito o texto, até me emocionou, eu te amo muito, desculpa qualquer coisa que eu tenha feito tah bem? Feliz Natal, espero que estejas contente ^^ Beijao meu amor, aaaaa quase esqueço, já viu seu presente? hehe corri e vai ver u.u Amo-te

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    1. Awwwn, que bom q gostas-te <3
      Adorei... serio, foi uma surpresa que me arrasou de felicidade.

      Não vou falar nada mais aqui se não meus leitores me matam por tanto tédio em posts de amor kkkkk
      Beijo <3

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  2. Ai *-* Bunny-Chii tu escreves historias tão lindas *----------*
    Fizeste me lembrar o meu escritor preferido >-<
    Não chorei u.u mas tive quase .-.
    Continua >< Kissus~

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  3. Ohhh Bunny-chin amo de mais as tuas histórias *---*
    Se fosse uma história qualquer eu provavelmente tinha desistido a meio, mas consegues que eu me motive e queira saber sempre os fins *-----------------------*

    Este teve um fim bem fofinho e um enredo igualmente fofo >w<
    Admito foi triste...mas muito bonito :3

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    1. Awwn Bigadas Biabia >-<
      Ainda bem ahahah

      Pois é :c
      Bigadas >_<

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  4. OMG! Adorei a história nee-chan! Aigoo... suor pelos olhos ;-;
    Está triste mas o final foi bem fofo *Q*
    Adorei! Escreves bem nyah~
    Começo a achar que o meu Bolinha (é um coelho kk) é a reencarnação de alguém owo xD

    Kissus~

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    1. Hahaha *Limpando suor dos olhos da onee*
      Já passou, já passou...

      TENS UM COELHO E NAO ME DIZIAS NADA?! o:
      Omg que fofura *-*

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